Trabalha e cuida de você… mas cadê a água, energia e internet?
Nas últimas semanas o município de Rondon do Pará, localizado no sudeste do Pará, tem passado por situações de escassez. A população tem enfrentado constantes instabilidades quanto ao fornecimento de água, energia e internet, condições básicas para a plena reprodução da vida cotidiana. A magnitude do problema é tamanha que, segundo os relatos dos moradores da cidade, na última quinta-feira e sexta-feira (23/04/2026 e 24/04/2026) os cidadãos passaram mais de 48 horas sem energia elétrica em suas casas. Somado a isso, as constantes interrupções da disponibilidade de acesso a água ou internet já eram situações recorrentes nas últimas semanas.
Em relação à insegurança hídrica que os moradores estão passando, recentemente a concessionária Águas do Pará assumiu definitivamente a operação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário da cidade, substituindo a concessionária Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), anteriormente responsável. Mas o que tem chamado atenção é a recorrência com a qual os moradores ficam sem água na cidade, situação essa que impossibilita a plena capacidade das pessoas em realizarem desde as mais básicas tarefas diárias.
Como se não bastasse a falta de água, outro problema constante tem sido a falta de acesso à energia elétrica. Falar sobre insegurança energética da população local em um dos principais estados produtores de energia elétrica do país é contraditório, mas não é surpreendente, visto que, mesmo sendo um dos maiores produtores de energia do Brasil, o Pará possui a tarifa mais cara do país, conforme apontou o ranking nacional de custo de energia do Brasil em 2025. Em relação ao acesso a internet, o estado é o 3º do Brasil com menor acesso à internet.
No caso dos moradores do município, a instabilidade da internet é uma presença constante, ou seja, manter-se conectado tem sido uma dificuldade extra para a população. Entende-se que o fio condutor do problema é maior do que se aparenta em um primeiro momento, no estado do Pará, a questão da falta de disponibilidade de água, energia ou internet é muito mais complexa e estruturante. Por exemplo, no que diz respeito ao saneamento básico, o estado enfrenta uma dura realidade, segundo os dados do Instituto Trata Brasil, em 2025, 4 municípios do Pará aparecem listados no top 10 do ranking dos piores sistemas de acesso a água e esgoto do Brasil, evidenciando com estatísticas a precariedade na qual a população já conhece na prática.
Esse cenário de falta de saneamento básico adequado, somado à questão energética e de conectividade tem potencial para a perturbação drástica da vida dos moradores, afetando diretamente a esfera produtiva do trabalho e reprodutiva dos cuidados cotidianos. Mesmo diante da compreensão que as dificuldades de disponibilidade, acesso e consumo residem em problemas estruturais, precisa-se pensar e questionar como tais situações vêm sendo tratadas no município. Afinal, quantas vezes e até quando os moradores vão ficar sem energia, água ou internet?
É necessário mais transparência e diálogos, além de que soluções definitivas precisam ser estabelecidas e cumpridas. O “trabalha e cuida de você” precisa ser muito mais que apenas um slogan e se traduzir essencialmente na garantia do bem-estar dos cidadãos rondonenses como prioridade, para que eles vivam de maneira mais digna e satisfatória. Afinal, a população de Rondon do Pará já espera há tempo demais por ações concretas, não por novos comunicados de interrupção.
Texto: Ana Maria Tigre (Economista, doutoranda em Desenvolvimento Econômico no Instituto de Economia da Unicamp. Pesquisadora do Cesit)








