Durante anos, aprendi a duvidar da minha própria dor. Hoje, aos 29 anos, convivo com o diagnóstico de endometriose profunda e adenomiose duas condições que afetam milhões de mulheres, mas que ainda são cercadas por desinformação, negligência e silêncio.
Antes do diagnóstico, vieram os julgamentos: “Isso é frescura”; “Cólica é normal”; “Eu nunca deixei de trabalhar por causa disso”. Essas frases, repetidas ao longo da vida, não apenas invalidam a dor feminina, mas ensinam as mulheres a ignorarem os sinais do próprio corpo.
E foi exatamente isso que eu fiz. Procurei atendimento médico diversas vezes e a resposta, quase sempre, era a mesma: “Cólica faz parte da vida da mulher”. A solução proposta era simples: o uso de anticoncepcionais para controlar os sintomas. Mas tratar sintomas não é o mesmo que tratar a causa.
A realidade é que dor incapacitante não é normal. O meu diagnóstico só veio após experiências profundamente dolorosas: perdas gestacionais e uma gestação ectópica. Situações que poderiam ter tido outro desfecho se houvesse investigação adequada desde o início.
Receber o diagnóstico foi, ao mesmo tempo, libertador e revoltante. Libertador por finalmente entender meu corpo; revoltante por perceber quanto tempo foi perdido e quanto sofrimento poderia ter sido evitado.
A endometriose não é apenas uma cólica mais intensa. É uma doença crônica que pode afetar diversos aspectos da vida da saúde física à fertilidade, do emocional à qualidade de vida. E o mais preocupante: muitas mulheres ainda não sabem que convivem com ela.
Por isso, o mês de março, marcado pela conscientização sobre a doença, precisa ir além das campanhas simbólicas. É necessário quebrar o tabu, ampliar o acesso à informação e, principalmente, validar a dor feminina. Nenhuma mulher deve ser ensinada a normalizar o sofrimento.
Observar o próprio corpo desde os primeiros ciclos menstruais, reconhecer sintomas fora do padrão e buscar acompanhamento especializado são passos fundamentais para um diagnóstico precoce. Mais do que isso: é um ato de autocuidado e resistência.
Falar sobre endometriose é urgente.
Falar sobre dor feminina é necessário.
E, acima de tudo, ouvir as mulheres pode mudar histórias.
Por: Rafaela Cordeiro
